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jueves, 17 de noviembre de 2011

TRATADO DA REINTEGRAÇÃO DOS SERES em sua primeira propriedade, virtude e potência espiritual

O BOM SENSO

Martines se escandaliza com as três pessoas em Deus. Para ele,
Deus é um e sua essência é quaternária. Essa quaternidade, Deus a
manifesta pela emanação dos primeiros seres em quatro classes.
Martines denuncia o dogma da Trindade, mas vê em Deus três
modalidades de expressão: o pensamento, a vontade e a ação. Essa
trindade de operação se exerce por meio de espíritos, e será
posteriormente também o apanágio do homem. Os anjos — que,
em Martines, são e não são os espíritos — desempenham uma
quantidade enorme de papéis para com Deus e o universo!
Martines mostra em seu Tratado como esses seres emanados
traíram e a história começou. Essa ruptura exigiu a criação material
destinada a servir de casa de correção para os rebeldes. O homem é
então emanado para dirigir o universo. Na companhia dos anjos
que permaneceram fiéis, ele deve trabalhar para a reunificação de
todos os seres. Os anjos bons são para o homem órgãos
necessários. O trabalho imputado ao homem, o culto verdadeiro,
consiste, portanto, em se relacionar com esses agentes
intermediários. Os anjos são como pseudópodes do mediador
supremo. Sua eficiência advém de sua subordinação ao Reparador
ou Mediador Universal, Cristo, Messias, Sabedoria, a coisa.
Adão é o primeiro elu, ou eleito, chamado a operar a
reintegração. Ele é o reau, o ruivo, feito de terra vermelha. Ele é o
rei do universo, homem-Deus fortíssimo em sabedoria, virtude e
potência. Adão é homem-Deus, emanado à imagem e semelhança
de Deus. Imagem de Deus, ele porta o selo quaternário; Martines o
chama de "menor quaternário". Semelhante a Deus, ele possui três
faculdades de expressão: pensamento, vontade e ação.
Adão vive primeiro fora da dimensão temporal e espacial, na
meta-história, embora sua missão o obrigue a fabricar para si um
corpo glorioso, a fim de obrar no mundo criado. Sua própria queda
o condenará ao exílio terrestre. Ele conserva, escondida nele, a
imagem de Deus, mas da semelhança ele só guarda as faculdades
de vontade e ação, porque ele se isolou do pensamento de Deus. O
homem deve se reconciliar para reencontrar sua triplicidade de
operação; como está, ele necessita dos outros espíritos para pensar.
Por sua vontade, incumbe-lhe, contudo, escolher entre os
pensamentos dos bons espíritos e os dos maus, que tentam
desencaminhá-lo. Privado do Sol supremo, ele tem um guia como
archote, um "bom companheiro": o seu anjo da guarda.
Mesmo exilado o homem conserva seu status e continua
ocupando o centro do universo, onde sua missão deve ser exercida.
Deus, entretanto, não deixa o homem sozinho em sua missão. Ele
lhe envia ou escolhe entre a humanidade os eleitos, ou seja,
homens que têm em si algo angélico ou divino. Muitos deles são
profetas e são escolhidos para manter o verdadeiro culto entre os
homens. Martines classifica esses eleitos em três categorias e
fornece uma lista deles: Hely (não Elias), Enoque, Melquisedeque,
Ur, Hiram, Elias e o Cristo (ou Messias). Uma outra lista
compreende Abraão (algumas vezes Adão e Abel), Enoque, Noé,
Melquisedeque, Josué, Moisés, Davi, Salomão, Zorobabel e o
Messias.
Através de todos esses eleitos circula, em graus variados de
presença, um só e mesmo espírito: o profeta recorrente, o Messias
coexistente com e na humanidade em vias de reintegração. Um
nome domina o desses eleitos: Hely. Ele é onipresente no Tratado
e seu papel é essencial na salvação dos homens.
Martines diferencia Hely (que às vezes ele escreve Rhely) de
Elias. Elias é, depois de Moisés, a maior figura do Antigo
Testamento. Como Enoque e, mais tarde, o Cristo, na Ascensão,
Elias sobe aos céus numa carruagem de fogo. Seu retorno é
anunciado para os tempos messiânicos. Para alguns, Elias, como
Melquisedeque, é um anjo encarnado. Outros supõem que, após
sua elevação, ele se tornou o anjo Sandalfon, assim como Enoque
se tornou o anjo Metatron. A tradição judaica faz de Elias o
precursor do Messias, e o Pseudo-Clemente discerne nele o profeta
recorrente. Martines fará o mesmo. Judeus, judaico-cristãos e
cristãos da Grande Igreja concordam sobre a figura messiânica do
profeta Elias. Os judeus sustentam que o Espírito não só inspira
Elias, mas está associado a ele. No baixo-judaísmo o Espírito é
dado ao Messias. A tradição judaico-cristã restaura essa última
tradição sem negligenciar a primeira. Elias se torna um quase-
Messias ou um Messias sacerdotal. Martines participa no malentendido,
porque Hely tem a ver com o Espírito.
Na época de Jesus as pessoas se interrogavam para saber se ele
era Elias. Os círculos judaico-cristãos ou gnósticos ensinavam que
o espírito ou o Espírito que séculos antes estivera com Elias, o
espírito de Hely, fez, durante o batismo no Jordão, sua junção com
Jesus, que teria assim se tornado o Cristo, isto é, Messias (em
grego). Martines foi educado ou recebeu essa concepção judaicocristã
que faz de Jesus o Hely, desde seu nascimento, ao que
parece, ou desde bem cedo.
Tenhamos em mente, no que diz respeito ao Tratado e outros
testemunhos do judaico-cristianismo, a recorrência de Elias,
tipologia conjunta, em ligação com o messianismo, com o Messias,
e, em razão da ligação com o Espírito, segundo a tradição rabínica
e judaico-cristã, com Jesus Cristo e sua Sabedoria,
Jesus-Cristo-Sabedoria; o Espírito e Jesus-Cristo-Sabedoria
associados ou conjuntos, segundo a tradição judaico-cristã. O
Espírito que é lambem o Hely de Martines; Jesus-Cristo-Sabedoria
que é a coisa. É preciso voltar incessantemente a esse ponto, e não
deixaremos de fazer isto. Nem de admirar Rhely.
Hely é o Cristo, inseparável do espírito, um ser pensante, o
novo Adão. Hely é o Cristo sempre presente nos profetas, por seu
espírito e sua virtude. Esses profetas são o Profeta que retorna, o
Messias sempre presente entre os homens, com diferentes nomes.
Para Martines, repetimos, Hely é o Verbo e o Espírito, a Sabedoria
que caminhava diante do Eterno quando da criação, o Verus
Propheta, o líder dos anjos. A permanência divina não exclui a
progressão profética. Hely é primordial, é o mais forte; o Cristo é o
último, que arruma e fecha tudo. Martines passa, sem problema, de
Hely, o espírito santo, para o Cristo, o Messias. Um e outro,
quando os distinguimos, animam a corrente dos profetas, na qual
eles estão, na qual ele está, com nomes próprios e respectivos, nas
duas extremidades. Todos os profetas são figuras do Cristo e
suportes de Hely, que chamamos de Cristo, eminentemente.
Mâchîah, o ungido, transcrito como Messias e traduzido para o
grego como Christos, retorna umas quarenta vezes no Antigo
Testamento. Ele se aplica a personagens consagrados por uma
função sagrada: reis, sacerdotes ou profetas. O Cristo é o
reconciliador universal, o reparador universal. O Cristo ou Messias
não se limita à pessoa de Jesus, que apenas o contém, e sempre
esteve com os filhos dos homens. Incógnito, é também uma
tradição importante dos judeus e dos judaico-cristãos.
Ao Cristo pertencem três grandes atos. Pelo primeiro, com o
nome de Hely, ele reconciliou Adão após a queda. Pelo
segundo, sua encarnação em Jesus, ele reconciliou todo o gênero
humano. A hora do terceiro soará no fim dos tempos, na
reintegração final. O Cristo deixou uma Igreja e uma liturgia que
incorpora elementos de tradição muito antiga. Martines sustenta
isso e identifica essa religião com o catolicismo romano que ele
professa, mas à custa de alguns ajustes e de quantos malentendidos!

TRATADO DA REINTEGRAÇÃO
DOS SERES
em sua primeira propriedade,
virtude e potência espiritual

TRATADO DA REINTEGRAÇÃO DOS SERES em sua primeira propriedade, virtude e potência espiritual

Que é o judaico-cristianismo? Os verdadeiros judeus são
cristãos, deveríamos dizer verdadeiros cristãos, sem deixarem de
ser judeus, e os primeiros cristãos eram judeus. Nos últimos
cinquenta anos os avanços dos estudos relativos às origens do
cristianismo foram sem precedente. Ficou claro que o panorama do
judaísmo no século I é de uma riqueza e mesmo de uma variedade
insuspeitadas; que o Novo Testamento, que pertence ao
cristianismo primitivo, e o Antigo Testamento, em cuja história o
Novo se insere, estão ambos inseridos no contexto da religião
greco-romana da época; que a variedade das comunidades cristãs
em nada fica a dever para a das escolas judaicas, com as quais
verificam-se analogias. Há, portanto, uma espécie judaico-cristã
tanto do gênero judeu como do gênero cristão, mas o próprio
judaico-cristianismo não é um monolito. O judaico-cristianismo de
Martines é, no século XVIII, uma dessas espécies. Essas espécies
se distinguem por seu grau de judaísmo e de cristianismo, o qual se
mede pela bitola da cristologia, a crença mínima sendo a da
messianidade de Jesus, o Nazareno, e a máxima, a da admissão da
deidade (ou a divindade indecisa?) do Cristo, de Jesus Cristo - seja
ela eterna, inata ou adquirida, por exemplo, com o batismo de João
— a qual, em todo caso, não implica o dogma estrito e definitivo,
definitivamente verídico, da Santíssima Trindade.
Os cristãos de origem judia constituíram, desde o início do
cristianismo e durante vários séculos, grupos particulares dentro da
Igreja, conservando a observância dos ritos judaicos. Foi o caso da
comunidade de Jerusalém presidida por Tiago, o irmão do Senhor
e de Judas.
O judaico-cristianismo ilustra a analogia entre a diversidade do
judaísmo e a diversidade do cristianismo no século I, situando-se
na linha dos escritos intertestamentários. Nessa linha: o Filho do
Homem, que poderia não passar de um homem comum, mas que é
o homem por excelência, esperança e paradigma do homem
comum, segundo seu desejo essencial, saudoso do passado e do
futuro, os céus, os bons e os maus anjos, o espírito e os profetas
(estendendo-se este termo a personagens do Antigo Testamento
que nem sempre o portaram), o combate das trevas contra a luz, a
escatologia do perpétuo hoje e do amanhã sem amanhã.
Textos de Qumran anunciam o futuro Sefer ha-Razim e os
textos mágico-teúrgicos do século I de nossa era, vinculando-se,
por seu lado mágico, onde a carruagem se põe em marcha, à cabala
e ao misticismo judaico dos tempos modernos. Mas é de mágicoteúrgico-
místicos que devem ser qualificados todos esses textos e
todos os textos congêneres, até mesmo o ritual Cohen, a despeito
de seus respectivos alto-relevos e correndo o risco de que o
qualificativo sofra um pleonasmo ou um duplo pleonasmo. Foi
sublinhado que essa corrente do judaísmo tinha, aqui e ali,
penetrado o cristianismo, mas, desde o início, ela tinha sido
assimilada pelo judaico-cristianismo.
Ao judaico-cristianismo pertence o ebionismo, com sua
cristologia baixa. Os ebionitas são próximos de Qumran, cultivam
a angelologia e o adocionismo. Eles rejeitam a identidade ôntica
entre Deus e o homem Jesus: nem o nascimento sobrenatural nem
a preexistência ou a deidade. Jesus é um homem que se torna
Cristo e Filho. O ebionismo é o ancestral do elcasaísmo, uma
comunidade muito próxima dos essênios e dos terapeutas. Para os
elcasaítas, o Cristo é Deus, mas num sentido restrito, e Jesus se
reencarna perpetuamente. Os ebionitas e os elcasaítas são os
herdeiros extraviados do grupo apostólico.
O judaico-cristianismo foi relegado pela Grande Igreja no
século IV Ele se metamorfoseia no maniqueísmo (no país dos
partenos...) e no islã; todavia, alguns grupos subsistirão e é deste
lado ainda pouco explorado que devemos buscar a ascendência
religiosa, teosófica e teúrgica de Martines na história.
Entre os escritos judaico-cristãos, as obras do Pseudo-Clemente
nos oferecem uma transição literária entre o judaico-cristianismo e
o Tratado de Martines. Homílias e Reconhecimentos apresentam
resquício de uma corrente da época apostólica hostil a Paulo. O
dogma fundamental deles: Deus e seu profeta — profeta verídico e
genuíno, Verus Propheta — repetem-se através dos tempos, de
Adão a Jesus, passando por Moisés. Seus pilares fundamentais são
os dois Testamentos e a lei; os anjos e os demônios e todas as
almas, todos engajados na luta da luz contra as trevas. A morte e a
ressurreição de Jesus Cristo não estão no centro, mas a Sabedoria
reguladora é a alma e a mão de Deus. A Ordem de Martines
floresce na singular ramificação de um ramo relegado, condenado.

TRATADO DA REINTEGRAÇÃO
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virtude e potência espiritual